AURA DO PALCO, ALMA DO TURISMO!

Jaime Telles revela alguns tópicos sobre uma atividade em que boa voz e desenvoltura ajudam, mas não bastam. Para ele, conduzir um evento exige leitura de ambiente, repertório, domínio do tempo e capacidade para decidir em poucos segundos. Telles aborda também outra área à qual dedicou parte importante de sua trajetória: o turismo.

ENTREVISTA

LÚCIO COLOMBO — Que fatores o aproximaram e o tornaram tão presente no segmento de eventos?

Jaime Telles — Eu diria que é por afinidade e pela satisfação de atender em momentos tão sensíveis. Motiva-me o desafio de lidar e aprender com os mais variados assuntos, desde uma simples reunião até os eventos mais suntuosos e protocolares. A maioria das pessoas evita tanta exposição.

LÚCIO COLOMBO — Então, falar bem ao microfone não é suficiente?

Jaime Telles — Não! –  Boa voz, dicção e desenvoltura são ferramentas importantes. Mas pesa muito mais saber o que fazer com elas. É preciso ler o ambiente, dominar o tempo, perceber as reações do público e ter segurança para tomar decisões. Cada evento tem aura própria.

LÚCIO COLOMBO — E qual é o papel do roteiro?

Jaime Telles — Sempre que possível, procuro participar da elaboração do roteiro. Prefiro me assegurar sobre cada etapa, os personagens e as ações técnicas. O roteiro estabelece o rito, coerente com o assunto e com o tempo conveniente. O apresentador, embora não esteja no roteiro, será a voz do evento, com autoridade e isenção para apontar o quê, quem, como e o porquê de toda a programação.

LÚCIO COLOMBO — O que os eventos têm de especial?

Jaime Telles — Cada evento é especial porque significa o ápice da confiança. Afinal, tudo é confiado a alguém que vai conduzi-lo e, inevitavelmente, será quem mais aparece. A performance desse profissional deve confirmar a eficiência da organização.

LÚCIO COLOMBO — Eventos corporativos, oficiais e culturais exigem posturas diferentes?

Jaime Telles — Completamente. Em cada caso, é preciso compreender a identidade e a mensagem da organização. Admito que o evento cultural contempla maior liberdade. É possível interagir com a plateia, criar expectativa e, claro, perceber a hora de sair de cena e deixar fluir aquilo que o evento traz.

LÚCIO COLOMBO — Depois de tantos eventos, como você define seu trabalho?

Jaime Telles — Pela palavra “condução”. Por diversas vezes tive o prazer de ouvir: “Que bom que você está aqui.” Isso remete à confiança, à qual me referi há pouco. Todo evento é desafiador, porque segue por sobre uma linha fina e frágil. Aí eu costumo lembrar que todos têm o direito de ficar tensos, menos eu. Conduzir e fazer parte daquilo tudo é assumir responsabilidade, com zelo e frieza diante de algo que tiraria o sono da maioria. Até porque, às vezes, nem tudo está escrito.

LÚCIO COLOMBO — Aí entra o improviso?

Jaime Telles — Sim. Mas só onde convém. De preferência, sem parecer improviso. Isso exige repertório, argumento e domínio da situação. Entre possíveis imprevistos, pode haver situações engraçadas, queda de objeto, falha técnica etc. Nessas circunstâncias, o improviso torna-se indisfarçável e deve ocorrer de forma breve e oportuna, apenas para retomar a normalidade.

LÚCIO COLOMBO — De onde vem esse repertório?

Jaime Telles — Vem do interesse pessoal e do compromisso com o cliente. Tenho gosto e predileção pela oratória, que está intimamente ligada à literatura, à poesia, à música, à experiência institucional, à convivência com autoridades e diferentes públicos e até a situações de bastidores. Mas cada evento exige critério que só serve ali, naquela situação. Minha tarefa é somar ao evento naquilo a que ele se propõe.

LÚCIO COLOMBO — O que permanece igual quando muda o palco?

Jaime Telles — O princípio de que todo evento tem aura própria. Aconteça o que acontecer, o público deve sair com a sensação de que tudo ocorreu como previsto e de que os aplausos foram merecidos. É assim que tenho trabalhado, tanto nos eventos como em minhas palestras.

TURISMO: POTENCIAL NÃO BASTA

LÚCIO COLOMBO — Além da oratória, da comunicação e da condução de eventos, você também costuma falar sobre turismo. De onde vem essa ligação?

Jaime Telles — De uma experiência bastante prática. Fui Diretor Municipal de Turismo de Joaçaba por três gestões e também presidi o Rota da Amizade Convention and Visitors Bureau, entidade da qual fiz parte desde seu nascedouro. Isso me permitiu conhecer o turismo para além da promoção e da organização. Sei da necessidade de criar produtos, envolver empresários, poder público e comunidade e, sobretudo, transformar potencial em produto e produto em experiência.

LÚCIO COLOMBO — Na sua avaliação, qual é o papel do poder público nesse processo?

Jaime Telles — É importante, mas não pode assumir sozinho uma atividade que depende essencialmente de quem empreende. O poder público deve planejar, estimular, melhorar infraestrutura, promover o destino e criar condições. Mas sempre defendi uma ideia muito simples: só há turismo onde alguém empreende. É o hotel, o restaurante, o comércio, o produtor, o artista, o promotor de eventos, o proprietário de um atrativo. São essas pessoas que transformam a passagem de um visitante em experiência e movimentação econômica.

LÚCIO COLOMBO — E o que diferencia um destino turístico de qualidade?

Jaime Telles — A capacidade de não cair no abismo do comodismo. Costumo dizer que só existe turismo de qualidade quando o empreendedor trabalha como se ainda precisasse conquistar o próximo cliente. Preservação, manutenção e inovação. Esse tripé é ouro no setor turístico.

LÚCIO COLOMBO — Então turismo também é comunicação?

Jaime Telles — Completamente. Uma cidade comunica antes mesmo de alguém falar sobre ela. Comunica pela limpeza, pela sinalização, pela receptividade, pela gastronomia, pelo atendimento, pela preservação de sua história e pela maneira como apresenta aquilo que tem de singular. Turismo só acrescenta. É, em grande medida, a capacidade de uma comunidade reconhecer o próprio valor, saber apresentá-lo aos outros e ainda gerar riqueza com isso.

LÚCIO COLOMBO — E onde os eventos entram nessa visão?

Jaime Telles — Com enorme importância. Um bom evento movimenta hotéis, restaurantes, comércio, transporte e serviços, mas pode fazer algo ainda mais valioso: apresentar a cidade a pessoas que talvez jamais viessem espontaneamente. O desafio é fazer com que o visitante atraído pelo evento descubra outros motivos para permanecer mais tempo e, depois, retornar. Quando isso acontece, o evento incorpora-se como instrumento de desenvolvimento turístico.

LÚCIO COLOMBO — Depois dessa experiência na gestão pública e no Convention Bureau, qual princípio você considera essencial para quem trabalha com turismo?

Jaime Telles — Entender que potencial turístico, sozinho, não paga conta. O que produz resultado é transformar o potencial em algo organizado, acessível, desejável e economicamente sustentável. Turismo exige visão, continuidade e empreendedorismo. É preciso surpreender e encantar. Entregar mais do que prometemos.

E, sinceramente, torço muito para que todo o nosso país perceba e compreenda o quanto é turístico, de Norte a Sul. Nosso “berço” é mesmo esplêndido. O Estado de Santa Catarina que o diga.


JAIME TELLES

-Reside em Joaçaba desde 1995.

-Autor do livro Caminhos e Descaminhos da Oratória.

-Palestrante credenciado da FCDL.

-Diretor Literário e Orador do Teatro Alfredo Sigwalt, de Joaçaba.

-Membro e orador do Instituto Histórico e Geográfico do Oeste Catarinense.

-Membro da Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina — ALBSC.

-Foi membro do Conselho Estadual de Cultura de Santa Catarina.

-Autor de diversos hinos oficiais públicos e institucionais.

-Produtor e coordenador de eventos artísticos e culturais.

Comentários estão fechados, mas trackbacks e os pingbacks estão abertos.